Os Dois Monges e a Mulher
Uma adaptação editorial de “Muddy Road”, história zen associada a Tanzan e Ekido, sobre disciplina, compaixão e o peso de uma cena que não termina por dentro.
O conto
A chuva ainda caía quando Tanzan e Ekido chegaram a uma curva alagada. A lama cobria a passagem de um muro ao outro. Junto à beirada, uma mulher de quimono claro media o chão com os olhos; qualquer passo a faria afundar até os tornozelos.
Tanzan parou diante dela.
— Venha — disse. Antes que Ekido perguntasse o que pretendia, tomou a mulher nos braços, atravessou a lama e a deixou no trecho seco. Ela agradeceu. Tanzan inclinou a cabeça e retomou o caminho.
Ekido veio atrás. Nos primeiros passos, esperou uma explicação. Depois, esperou um pedido de desculpas. Os dois atravessaram campos, passaram por uma aldeia e dividiram a água de uma cabaça. Tanzan falava apenas do abrigo onde poderiam passar a noite.
Quando avistaram o portão do templo, a chuva havia parado. Ekido já não conseguiu conter a pergunta.
— Fomos ensinados a não tocar em mulheres, sobretudo numa jovem como aquela. Como pôde carregá-la?
Tanzan pousou a cabaça no degrau e olhou para o companheiro.
— Eu a deixei naquela curva — disse. — Você ainda está com ela?
Um modo de olhar
Tanzan responde à dificuldade que encontra; Ekido permanece fiel à regra, mas transforma a espera por uma explicação em acusação. O conto não resolve de forma abstrata a tensão entre disciplina e compaixão. Deixa que os dois modos de agir caminhem lado a lado até o portão.
O que talvez esteja pedindo para ser visto
Um acontecimento pode terminar no mundo e continuar ocupando espaço por dentro. Às vezes, o peso não está apenas no que ocorreu, mas na conversa adiada, na sentença repetida e na necessidade de manter o outro preso àquela cena.
Uma pergunta para levar consigo
O que mantém uma cena antiga presente, mesmo quando o caminho já seguiu adiante?
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