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O Mito de Narciso

Uma adaptação editorial do episódio de Eco e Narciso nas Metamorfoses de Ovídio, sobre imagem, desejo e a impossibilidade de um encontro sem alteridade.

Origem: Adaptação editorial de Ovídio, Metamorfoses, livro III Tradição: Tradição clássica 📖 Leitura de aproximadamente 2 minutos

O conto

Eco o viu entre as árvores quando ele separava os cães depois da caça. Quis chamá-lo, mas uma antiga condenação lhe permitia apenas devolver as últimas palavras que ouvia. Esperou que Narciso falasse primeiro.

— Há alguém aqui? — perguntou ele.

— Aqui — respondeu ela, saindo do bosque com os braços abertos. Narciso recuou. Preferia, disse, morrer a se entregar a alguém. Eco repetiu o fim da frase, mas ele já se afastava. Restou-lhe a voz, cada vez mais fraca, presa às palavras dos outros.

Não foi a única rejeição. Rapazes e moças procuraram Narciso e encontraram o mesmo desprezo. Um deles pediu aos deuses que o jovem conhecesse um desejo impossível de alcançar. Nêmesis ouviu.

Num meio-dia de caça, cansado e com sede, Narciso encontrou uma fonte que nenhum animal havia turvado. Ajoelhou-se. Sob a água clara apareceu um rosto que não desviava os olhos. Ele sorriu; o rosto sorriu. Aproximou os lábios; a superfície se rompeu.

Narciso esperou a água aquietar. Tentou tocar os cabelos, a boca, o pescoço. Cada gesto desfazia o que desejava, e cada espera o devolvia mais perfeito. Chamou pela figura. A mata respondeu com a voz de Eco, mas do fundo da fonte não veio palavra alguma.

Só depois reconheceu os próprios olhos. A descoberta não o libertou: tornou exata a impossibilidade. Não podia abandonar o que amava sem abandonar a própria imagem, nem podia abraçá-la sem destruí-la na água. Permaneceu ali enquanto a força deixava seu corpo.

Quando as ninfas vieram buscá-lo, não encontraram o jovem. À margem da fonte havia apenas uma flor de centro dourado, inclinada sobre o mesmo espelho.

Um modo de olhar

O reflexo oferece a Narciso uma presença sem alteridade: acompanha cada gesto, nunca discorda e nunca chega de fato. Eco, ao contrário, deseja encontrá-lo, mas sua voz depende das palavras dele. Entre os dois, o mito aproxima formas diferentes de uma relação que não consegue acontecer.

O que talvez esteja pedindo para ser visto

Ser admirado não é o mesmo que ser encontrado. A imagem pode proteger da surpresa, do limite e da resposta imprevisível de outra pessoa; por isso também pode fechar o desejo num circuito onde nada novo entra.

Uma pergunta para levar consigo

Que diferença existe, hoje, entre o olhar que você procura e o encontro que poderia surpreendê-lo?

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