O Agricultor e o Cavalo
O Agricultor e o Cavalo: adaptação do Huainanzi sobre incerteza, julgamento e tempo.
O conto
Na borda norte da aldeia, onde os campos terminavam junto às terras de fronteira, um agricultor abriu o curral antes do amanhecer e encontrou a tranca no chão. O único cavalo da família havia desaparecido. Restavam marcas de casco seguindo para além das colinas.
Os vizinhos vieram ajudá-lo a procurar. Ao anoitecer, regressaram sem o animal e se sentaram diante da casa. Disseram que perder um cavalo às vésperas do plantio era uma desgraça. O agricultor passou a mão pela madeira quebrada da tranca. — Como podemos saber? — respondeu. Depois consertou o curral vazio.
Alguns dias mais tarde, um tropel levantou poeira na estrada. O cavalo voltava acompanhado de vários animais selvagens. A aldeia cercou o curral, contando quantos poderiam ser vendidos ou postos no arado. Agora chamavam o agricultor de afortunado. Ele observou o filho, que já escolhia com os olhos uma égua ainda arisca. — Como podemos saber? — repetiu.
O rapaz começou a domar os animais. Numa manhã, a égua se ergueu sobre as patas traseiras e o lançou contra uma pedra. O estalo foi ouvido do outro lado da cerca. O pai correu, cortou a bota inchada e imobilizou a perna com duas ripas enquanto o filho mordia um pedaço de couro.
Os vizinhos trouxeram caldo e lamentaram a nova infelicidade. Sem o rapaz, o plantio seria lento; talvez ele nunca voltasse a andar direito. O agricultor agradeceu a comida, trocou a faixa ensanguentada e disse apenas que ainda não podiam ver onde aquele acontecimento terminava.
Antes que o osso se firmasse, soldados chegaram com uma lista. A guerra avançava na fronteira, e cada família deveria entregar um jovem capaz de marchar. Portas se abriram, nomes foram chamados, sacos foram postos às costas. Quando o oficial viu a perna presa às ripas, riscou o nome do filho e seguiu para a casa seguinte.
Naquela noite, ninguém veio anunciar sorte ou desgraça. O agricultor levou uma tigela ao filho, conferiu a tranca do curral e ficou escutando os cavalos se moverem no escuro. A estrada por onde os outros rapazes haviam partido já não levantava poeira.
Um modo de olhar
A resposta do agricultor não transforma dor em bênção nem perigo em promessa. Ela apenas recusa um veredito antes que as consequências tenham terminado de se formar. Enquanto os vizinhos nomeiam cada mudança, ele atende ao que está diante dele: a cerca, o ferimento, a comida, a noite.
O que talvez esteja pedindo para ser visto
Incerteza e passividade não são a mesma coisa. É possível cuidar do que aconteceu sem decidir depressa o que aquilo significará para sempre. Alguns fatos pedem ação imediata; o nome definitivo pode esperar.
Uma pergunta para levar consigo
Que acontecimento ainda pode mudar de sentido com o tempo?
Sentimentos relacionados
Temas
Outros contos relacionados
Esta história encontrou algo em você?
Escolha o que está sentindo e encontre uma reflexão filosófica para este momento.
Encontrar uma reflexão